ADRIANABARRETO
 
Adriana Barreto: continente invisível

Ao considerar que as artes visuais, desde os anos sessenta, sofreram um processo de hibridização, em que diversas disciplinas, meios, referências e poéticas passaram a se atravessar, podemos compreender a contemporaneidade da obra de Adriana Barreto.

Sua trajetória revela a sua poética: uma investigação constante que abrange categorias e meios diversos (pintura, escultura, performance, dança, coreografia, vídeo, fotografia etc.). Contudo, não se trata de uma investigação formal, senão, espaçotemporal, tendo em vista o permanente estado de devir de suas obras: seus objetos escultóricos se mantêm em um ponto específico de equilíbrio sugerindo os possíveis percursos de suas quedas; as linhas de suas pinturas vibram e se multiplicam no espaço pictórico ressonado noutras, quase invisíveis, que se confundem com a materialidade da fatura; seus vídeos são ações performáticas, assim como suas fotografias que, juntas, criam uma coreografia das mãos da artista.

A estrutura espaçotemporal de suas obras deve, em muito, à experiência da artista com a dança e com a coreografia. O corpo tem papel definitivo na sua criação, especialmente na afirmação do equilíbrio, numa espécie de dominação do espaço: quando a bailarina, na ponta dos pés, constrói seu percurso espacial sequencialmente até a exaustão ou na manipulação de massa escultórica que surge a partir do vídeo O côncavo da mão; na manipulação em perfeito equilíbrio das mãos esquerda e direita gerando o ponto, literalmente, de equilíbrio, na confecção de suas circunferências, por exemplo.

A liberdade da experiência estética que Adriana Barreto utiliza em seu processo de criação, sem as limitações determinadas pelas especificidades das áreas de conhecimento, se revela num vasto repertorio técnico e poético.

Nesse sentido Adriana Barreto vem desenvolvendo uma série de conceitos que lhe são caros e que promovem principalmente a intersecção entre dança e artes visuais tendo como centro de reflexão o corpo. Tal incursão exigiu da artista a concentração numa sequência de pequenas observações e práticas que resultaram em dados que ela considera conceitos-base para a percepção do corpo como status de consciência no mundo. O corpo é encarado primeiro por sua forma, isto é, um volume orgânico dentro do espaço; segundo, por sua capacidade intelectual de lidar com consigo mesmo e com o espaço ao tomar consciência de si nessa interação. Desse mote, vem uma sequência de estados de crítica no qual o corpo é instalado para que se possam efetuar ações de integração do corpo-mundo. A esse estado de ser a artista chamou de "continente invisível". Como o corpo é o vetor de sua pesquisa, o espaço é naturalmente seu complemento. Assim, o "continente invisível" é basicamente o corpo e seu embate com o mundo físico – o corpo está no chão, sob o efeito da gravidade, rodeado de espaço que é o ar, e é na percepção do ar que o corpo deve notar o volume no qual está inserido. Adriana leva em consideração, em especial, que o corpo é na essência uma massa abaulada, circular e esférica, que se comunica com o universo também esférico, onde um dos aspectos mais importantes é perceber as invisibilidades sob as quais o corpo está sujeito, entre elas: o ar e os espaços disponíveis na superfície do corpo. É claro que, além disso, a artista tem considerado amplamente o contexto de inserção; essa harmonização do corpo-mundo sugere que haja uma predisposição para estar socialmente crítico e disponível, posto que se há uma defesa da consciência do corpo, há aí também uma postura política em relação a esse mesmo contexto.

É a partir desse "continente invisível" que a artista vem desenvolvendo ao longo de algumas décadas seus trabalhos, dentre eles vale destacar o espaço-forma, denominado por ela como "côncavo da mão", lugar nas palmas das mãos de criação de volumes esféricos que traduzem a sintonia fina do corpo com as coisas externas a ele. Outro exemplo, ainda, é o "menor espaço para o corpo", que é aquele que pode ser ocupado por uma pessoa quando se está nas pontas dos pés. Tanto o "côncavo da mão" quanto o "menor espaço para o corpo" são sugestões da artista em relação à construção e à ocupação do mundo. São pequenas metas que deflagram um amplo processo de crítica em relação ao modo como o corpo se relaciona com o espaço. Desse modo, a artista cria alternativas aos massificantes processos sociais de absorção e embotamento aos quais estamos expostos, oferecendo-lhes uma experiência sensível, cujo compromisso seria o de poder concentrar-se em si para melhor habitar.


Alberto Saraiva
Curador