ADRIANABARRETO
 
Nesta terceira apresentação do seu trabalho em Portugal, a artista brasileira Adriana Barreto regressa às suas questões fundamentais: o corpo, a forma como ele se ajusta e gera espaço, os processos pelos quais o corpo se expande e expande o espaço pelo movimento.

Os trabalhos que compõem Extensões do Corpo são, neste momento do seu processo – e já explicitaremos o que isto quer dizer – 3: um trabalho videográfico, um conjunto de imagens fotográficas em dois formatos distintos e uma intervenção performativa.

O trabalho videográfico nasceu de uma performance sem público, realizada no ateliê da artista com a colaboração de uma bailarina profissional. O resultado foi uma sequência de gestos circulares em torno de um conjunto de esculturas esféricas (mas cheias de irregularidades e de imperfeições decorrentes da sua manualidade), que faziam agarrar o corpo ao solo. Este conjunto de gestos, redondos como uma ritournelle, foram posteriormente sobrepostos a um som, uma partitura para bateria, realizada pelo percussionista Bruno Pedroso a partir das imagens do  filme já editadas. O contraste entre o som arranhado e seco, cheio de arestas do som, necessariamente alto e envolvente – que vem do lado oposto do espaço em relação às imagens – simultaneamente contradiz a linguagem redonda e circular das imagens, reforçando, no entanto, o caráter circular da estrutura da ritournelle, porque faz regressar sempre ao mesmo lugar mas numa instância diversa.

Durante a rodagem do vídeo foram também realizadas um conjunto de imagens fotográficas que nos surgem em dois formatos distintos, implicando relações visuais completamente distintas: em pequeno formato, impressas em Platinum Palladium, um processo fotográfico sofisticado, arqueológico e manual, surgem imagens de conjunto, frequentemente vistas aéreas, que evocam o imaginário anónimo da fotografia da dança moderna e que compelem a uma relação óptica, quase íntima. Em grande formato surgem fragmentos, rodados no espaço, que aludem aos universos de Man Ray, de Kertesz ou de Steichen, num permanente jogo de aproximação e distanciamento. O cuidado das imagens e a sua qualidade quase preciosa contradizem a natureza evolutiva do processo, a circularidade lúdica do movimento.

A performance (o terceiro âmbito do trabalho) consiste numa versão modificada do que é apresentado no vídeo, complexificada a partir do aumento de intervenientes, da diluição entre o espaço da ação e o espaço do espectador, dubiamente convidado a participar, e a multiplicação do espaço, a sua desconstrução, construída a partir da utilização de superfícies espelhadas de grandes dimensões – de facto, das mesmas dimensões do ecrã no qual o vídeo é projetado. Durante o trabalho de apresentação da performance serão realizadas novas imagens videográficas que esborratam a fronteira entre obra e processo, multiplicando as camadas de relação e de existência da própria obra que se constrói, assim, como um encadeado sistémico de práticas – performativas, imagéticas, de edição, compositivas, num circuito que se multiplica até à sua conclusão, agora impossível de localizar.

O jogo que, finalmente, a obra instaura situa-se na pulsação entre proximidade e distância, entre a  fisicalidade da proximidade e a plasticização da visão aérea, entre o quase contacto com os corpos que executam as ações no solo e a sua espacialização na reflexão complexa dos espelhos, entre a visão de proximidade em relação ao conjunto das pequenas e absolutamente preciosas imagens fotográficas e a monumentalização quase irónica do detalhe, do pormenor que, que pela sua ampliação, parece ganhar um sentido que permanece recôndito, ou entre a organicidade violenta do som e o acetinado da projeção negra, na qual a luz é absorvida e tudo  fica envolto num estranho aveludado.

Delfim Sardo
Curador