ADRIANABARRETO
 
Adriana Barreto: O que pode um corpo

Após a sua primeira exposição em Lisboa em 2012, na Fundação das Comunicações, Adriana Barreto (Rio de Janeiro, 1949) regressa a convite da Galeria Cristina Guerra para realizar um acção efémera e irrepetível, a performance O QUE PODE UM CORPO.

Esta performance, na continuidade do trabalho da artista, vem na sequência de uma outra obra performativa (um vídeo) O menor espaço para o corpo, em que as preocupações sobre os limites da corporalidade, o espaço que o corpo ocupa, o tempo, o movimento do corpo e desta forma o movimento como desenho se inscrevem enquanto obra plástica e visual, revisitando o contexto da dança e da coreografia como forma e como estratégia de reflexão sobre a temporalidade do corpo.

Para esta performance Adriana Barreto transformou o espaço da galeria numa caixa/contentor (próxima de uma black box) e concebeu uma peça sonora. Sobre o chão negro vão ocorrer dois tempos da performance interpretada pela artista e por seis bailarinas/performers cujos corpos se assemelham a silhuetas negras traçadas de branco.

No primeiro momento as bailarinas vão retirar do seu corpo negro sinais brancos de fita adesiva e colocar no chão como marcações em forma de cruz, criando uma grelha do percurso coreográfico, num itinerário que marca o compasso temporal dos movimentos de cada corpo no plano bidimensional da sala. Em simultâneo, o som de uma voz marcado por uma métrica rigorosa (a própria artista), declama uma sequência de palavras, e conduz-nos através de uma pluralidade de sentidos que a ação do corpo no espaço e no tempo pode gerar como metáfora: “repete, além, limite, desdobrar (…) repete, movimentos, intensidade, afetos, agir (…).

No segundo momento da performance, as figuras das bailarinas sofrem uma subtil transformação e os seus corpos tornam-se esvoaçantes e fluídos desenhando com giz branco ligações entre as marcações inscritas no chão negro. O desenho é aqui a expressão poética da pulsão da fisicalidade do corpo (e a memória coreográfica), que cria uma multiplicidade de desenhos de raiz aleatória numa correspondência com a pluralidade de formas que os corpos vão extraindo de si mesmos.

O QUE PODE UM CORPO, uma frase que Adriana Barreto colheu do pensamento de Espinosa, autor que guia as suas reflexões, propõe um questionamento sobre os limites e as afeções a que um corpo (o nosso corpo?) é sujeito, sejam estas da esfera das emoções ou do mundo fisíco, espacializado e desta forma mensurável. A que distância se encontra esse corpo de que falamos, e qual a sua localização no tempo?


Lisboa, setembro de 2012
João Silvério